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Para o turismo brasileiro, 2006 não trouxe bons resultados. Ao contrário da tendência mundial de crescimento no setor, o Brasil recebeu 400 mil visitantes internacionais a menos do que em 2005. Cerca de cinco milhões de pessoas estiveram no país, representando queda de 6,3% no fluxo de turistas. O caos aéreo, que fez muita gente desistir de viagens domésticas, também teve reflexos na disposição dos estrangeiros em se aventurar por aqui, na avaliação do gerente da Unidade de Turismo do Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (CET/UnB), Domingos Spezia.
                    Domingos Spezia
     
Para alívio de quem depende desse mercado, 2007 promete balanços mais acalentadores. A realização dos jogos pan-americanos no Rio de Janeiro e a eleição do Cristo Redentor como uma das sete maravilhas do mundo são apontadas como combustíveis potenciais para o setor.

Mas, na avaliação do professor, não se deve comemorar antes da hora. “Foi criada no Rio de Janeiro toda uma estrutura para o pan, resultado de um esforço concentrado, para garantir maior mobilidade e segurança para todos os visitantes. Como vem perdendo turistas nos últimos tempos, eventos dessa natureza devem impactar diretamente. A questão é se o crescimento se mantém”, pondera Spezia. Atrair turistas, para o professor, depende de ações integradas principalmente nos setores de segurança, transporte e qualidade dos serviços ofertados em todos os níveis. Para ele, a distância do Brasil em relação à Europa e aos Estados Unidos coloca o Brasil em uma posição desconfortável quando se faz um ranking mundial de países que mais recebem visitantes.

“Se temos problemas na oferta de um turismo de qualidade, o que motivaria o turista estrangeiro a viajar muito mais para vir ao Brasil, ao invés de ir para Cancún?, questiona. Em entrevista à UnB Agência, Spezia faz um panorama do turismo no Brasil, comenta as deficiências no setor e critica a falta de visão de empresários para a importância do investimento em qualidade. Além disso, elogia a iniciativa do poder público de incentivar, pelo menos no discurso, que os brasileiros conheçam o país. “O incremento do turismo interno passa pela melhoria da qualidade de vida do brasileiro”, avalia. Confira:

  
 
UnB AGÊNCIA – Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT), o número de visitantes estrangeiros no Brasil caiu 6,3%. Cerca de cinco milhões de pessoas vieram ao país em 2006, 400 mil a menos que em 2005. O que isso significa?
SPEZIA - A redução do número de turistas estrangeiros no Brasil em 2006 nos coloca na contramarcha do que acontece no mundo inteiro. Enquanto nos outros países o turismo cresceu em termos de oferta e demanda, no Brasil, o aumento na oferta, o trabalho de divulgação das belezas e a desconstrução de uma imagem negativa no exterior não vieram acompanhados de um aumento na demanda. Vários fatores podem ser associados a isso. Muitos são velhos conhecidos nossos, como a falta de segurança, de transporte e de qualidade dos serviços. Associa-se a isso o pouco que se fez para atenuar todas essas dificuldades que pesquisas e mais pesquisas vêm indicando há muitos anos. Todo mundo sabe que não basta ter belos atrativos turísticos. É necessária uma infra-estrutura para dar suporte. Também não deixa de ser um contra-senso tentar atrair visitantes sem fazer investimentos para suprir essas dificuldades.

UnB AGÊNCIA – Os problemas vividos nos aeroportos devido ao caos aéreo podem ter influenciado esse resultado negativo?
SPEZIA – Eu não tenho dúvidas quanto a isso. A notícia hoje é instantânea. O que acontece nos aeroportos brasileiros chega ao mundo inteiro no mesmo momento. Existe um reflexo no turismo interno e o mesmo acontece lá fora. Não há nenhuma pesquisa, mas é ao que nos remete o senso comum. A crise aérea, que é mais complexa do que os problemas nos aeroportos, é resultado da inexistência de uma visão estratégica para o crescimento do país, inclusive no turismo. A conseqüência é a falta de estrutura. Soma-se a isso saída da Varig do mercado, que era a única detentora da concessão das linhas internacionais. Todos esses problemas juntos só poderiam resultar na redução do fluxo de visitantes.

UnB AGÊNCIA – Ainda segundo a OMT, em 2005, a Bulgária recebeu mais turistas do que o Brasil. Dentro do ranking do turismo internacional, estamos apenas em 37º lugar. O que os visitantes procuram que o Brasil não oferece?
SPEZIA – O Brasil não é um país estrategicamente localizado. Não é tão atraente porque, entre outros fatores, está distante de centros como a Europa ou os Estados Unidos. E, se temos problemas na oferta de um turismo de qualidade, o que motivaria o turista estrangeiro a viajar muito mais para vir ao Brasil, ao invés de ir para Cancún? A avaliação em relação a países como a Argentina, o Chile ou o Uruguai seria mais razoável. Não podemos ser comparados a grandes e tradicionais destinos turísticos, que têm uma infra-estrutura de transporte rodoviário bem planejada. Você sai de manhã, por exemplo, da Bélgica, pode fazer turismo em dois, três, países no mesmo dia. O roteiro inclui almoço em Paris e jantar em Londres ou na Alemanha. É mais importante avaliar qual é o fluxo dos europeus que vêm para a América do Sul e para onde eles estão indo. Esse é um estudo interessante que poderia ser feito.

UnB AGÊNCIA – Dados do Ministério do Turismo indicam um crescimento do turismo internacional para o nordeste brasileiro em 2006, em detrimento à queda para Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo o anuário estatístico do turismo, a Bahia recebeu quase 20 mil visitantes a mais. O Rio de Janeiro foi destino de cerca de 72 mil a menos. Isso está relacionado a questões de segurança?
SPEZIA – Entre os estrangeiros, o nordeste tem uma demanda cativa de determinadas agências estrangeiras com vôos charters, que são vôos fretados e fechados. São turistas que, geralmente, já vieram mais de uma vez ao Brasil e estão retornando. Talvez toda essa questão da violência não interfira. O fato é que, de um modo geral, o fluxo para o Brasil está menor.

UnB AGÊNCIA – E o turista brasileiro, para onde viaja?
SPEZIA – Acredito que a questão da segurança afasta os turistas brasileiros. O Rio de Janeiro sempre foi a Meca do turismo no Brasil. Todo mundo, quando falava em viajar, tinha em mente ir para lá. A hospitalidade, a irreverência e a cultura do povo carioca ajudavam a divulgar os atrativos turísticos que são cantados em verso e prosa. Mas hoje, muita gente opta por não ir para o Rio por causa da violência estampada nos meios de comunicação. Pensa-se duas vezes antes de viajar para grandes centros urbanos, incluindo capitais do nordeste, como Recife e Salvador. Isso leva a crer que as opções da classe média, que é quem viaja, seja para locais menos vulneráveis à violência urbana.

UnB AGÊNCIA – Um dos grandes chamarizes para o turismo internacional é o Rio de Janeiro. Aproveitando o pan, a estratégia do governo é promover ainda mais a cidade, investindo cerca de R$ 15 milhões até o final do ano. Essa é uma boa estratégia?
SPEZIA – Se nós podemos prospectar mercado e podemos determinar metas dessa magnitude, precisamos respaldar os números cobrindo as deficiências que são apontadas em todos os níveis: transporte, segurança e qualidade dos serviços. Se não tivermos isso, não vamos chegar a lugar nenhum. Enquanto não houver a sensibilização da classe empresarial, de que ela pode se beneficiar com o incremento do turismo de qualidade, a coisa não anda. Muitos empreendimentos turísticos não valorizam a mão-de-obra qualificada retribuindo isso em termos salariais. Há praticamente 600 cursos superiores no país voltados para o turismo, mas tão logo os estudantes concluíram seus cursos, se depararam com um mercado em que a profissão não é valorizada.

UnB AGÊNCIA – Quais os caminhos para superar essas deficiências?
SPEZIA – O turismo no Brasil tem tido tratamento profissional nos últimos anos, reconhecido como um setor que gera divisas para o Brasil. Mas isso nunca tinha sido feito antes. Estamos em um segundo mandato com investimentos no que, de qualquer forma, ainda são muito inferiores às necessidades. Deve haver a consciência, entre as várias áreas econômicas capitaneadas pelos ministérios, da necessidade de uma intervenção de ordem econômica geral. O problema é muito mais estrutural do que conjuntural.

UnB AGÊNCIA – Essa reestruturação precisa passar por que patamares?
SPEZIA – Passa pelo aumento da qualidade de serviços em todas as áreas do turismo. O primeiro Plano Nacional de Turismo teve o grande mérito de organizar idéias e projetos, mas pecou no atendimento de suas metas. Parte do trabalho de verificação do cumprimento das metas teve a participação do CET. O segundo Plano de Turismo, com o qual o CET também contribuiu, trouxe grandes evoluções. Lá está registrada a preocupação com a melhoria da qualidade dos serviços. O esforço é muito grande, mas ainda falta. Precisamos ter um tratamento mais sistêmico desses esforços, já que os recursos são escassos.

UnB AGÊNCIA – O investimento no setor é proporcional à importância que o turismo tem na economia brasileira?
SPEZIA – Sempre faltam recursos, embora o turismo já tenha ficado em segundo lugar na colaboração para o Produto Interno Bruto (PIB). Quando ficou em terceiro na geração de divisas, só ficava atrás do minério de ferro e da soja, que têm todos os incentivos governamentais. O turismo conta apenas com sua própria inércia. Mas os investimentos não devem vir apenas do orçamento do Ministério do Turismo. São necessárias colaborações na área de transporte, de segurança, entre outras, em uma ação conjunta. Não é somente atribuindo ao Ministério do Turismo orçamentos cada vez maiores que o problema será solucionado. A violência no Rio de Janeiro, por exemplo, e o apagão aéreo não são problemas de competência do Ministério, mas o turismo ressente-se disso.

UnB AGÊNCIA – O que representa a eleição do Cristo Redentor com uma das sete maravilhas do mundo? Isso é, realmente, um chamariz para turista?
SPEZIA – Sem dúvida nenhuma, a eleição do Cristo Redentor como a terceira maior maravilha da Terra enobrece, enche de orgulho e, em médio prazo, pode incrementar o fluxo do turismo para o Brasil. O Ministério do Turismo prospecta a possibilidade de gerar até 250 mil empregos para atender ao aumento da demanda. Não sei da onde vem esse número. Mas eu diria que pode ser uma grande decepção também porque, no Brasil, alternam-se notícias ruins e boas: diminuiu o número de turistas, mas temos uma das maravilhas do mundo. Mas se essa redução não for enfrentada, ao invés de aumentar o fluxo de visitantes, pode-se agravar a curva descendente.

UnB AGÊNCIA – De qualquer forma, a eleição do Cristo foi justa?
SPEZIA – Essa eleição está sendo muito criticada no mundo inteiro, mas podemos creditar isso a choro de perdedores. Todos os países tiveram a chance de se mobilizar para eleger seus símbolos. A própria organização do concurso mostra que a Índia e o Brasil foram os que mais investiram na divulgação e mais se mobilizaram para a eleição. Estar entre as sete maravilhas, como um produto de marketing, talvez seja muito importante, mas a consolidação da imagem só vem depois que o visitante vem ao país e constata que viu uma maravilha.

UnB AGÊNCIA – O pan-americano no Rio de Janeiro será um teste para a cidade provar que tem condições de abrigar uma maravilha do mundo?
SPEZIA – Sim. Foi criada no Rio de Janeiro toda uma estrutura para o pan, resultado de um esforço concentrado, para garantir maior mobilidade e segurança para todos os visitantes. Como vem perdendo turistas nos últimos tempos, eventos dessa natureza devem impactar diretamente. A questão é se o crescimento se mantém. Acredito que sim a partir da hora em que se constatar que tudo correu muito bem. Mas existe sempre o perigo de alguma coisa dar errado. E se isso acontecer, as conseqüências serão desastrosas.

UnB AGÊNCIA – Nos últimos anos, a Embratur tem feito campanhas e empenhado esforços para mudar a imagem do Brasil, muitas vezes associada lá fora a mulheres e sexo. Já podem ser observados resultados?
SPEZIA – A exploração sexual talvez seja a principal imagem negativa que temos no exterior e isso não será mudado da noite para o dia, apesar de campanhas bem feitas pela Embratur. De qualquer forma, essa mudança requer a oferta de outros destinos. Se antes as campanhas publicitárias do próprio governo apresentavam o Brasil com cartazes com fotos de mulheres nuas, hoje há imagens do Pantanal, da Amazônia, e a idéia de um turismo sustentável, de aventura, científico e pelo interior do país. Mar e praia também não são mais o foco exclusivo, como se fazia antes, até porque há concorrentes muito mais competentes que nós. A América Central prova isso, com relação à segurança, transportes e serviços. Um dos resultados do trabalho de divulgação que a Embratur vem fazendo é o crescimento do turismo de eventos. À medida que se realizam no país, estimulam os participantes a conhecer um país com potencialidade turística. Quando bem tratado, o turista volta.

UnB Agência – E dentro do país, como o senhor avalia o turismo dos brasileiros? O Ministério do Turismo colocou o incentivo ao turismo doméstico como uma das prioridades. É uma aposta acertada?
SPEZIA – O incremento do turismo interno passa pela melhoria da qualidade de vida do brasileiro. Hoje, quem faz tu rismo de lazer no Brasil é a classe média alta. Os mais pobres têm dificuldade para se deslocar. Às vezes fazem um tipo de turismo considerado compulsório, para tratamento médico, visitas a familiares e amigos. Mas o que está sendo feito, talvez de forma incipiente pelo governo, é o uso do turismo como instrumento de inclusão social, desenvolvendo programas que possibilitem às classes menos favorecidas sair da sua vida doméstica. Esses projetos tendem a crescer e melhorar a qualidade de vida da população brasileira. Mas para isso é preciso dinheiro e o turismo é um dos últimos itens na lista de prioridades das famílias brasileiras. Mas acredito no desenvolvimento do turismo como um instrumento de socialização da população.

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PERFIL

Domingos Sávio Spezia é graduado em Administração e mestre em Gestão Pública e Governo pela Universidade de Brasília (UnB). É especialista (lato sensu) em Gestão da Educação Tecnológica (Technical Education Management), pela Oklahoma State University (EUA). Possui mais de 20 (vinte) anos de experiência profissional em Administração, docência de nível superior e consultoria organizacional pública e empresarial. Atualmente, é professor-adjunto da UnB, gerente da área de Turismo, coordenador de cursos de pós-graduação e professor do Centro de Excelência em Turismo (CET/UnB). É também membro do Conselho de Turismo do governo do Distrito Federal e membro do Conselho Consultivo do CET/UnB.

 

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