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Neio Campos

Diretor do CET/UnB

O CET/UnB criou o projeto Observatórios para o Turismo Sustentável por entender que o seu funcionamento permite a organização de um sistema de informações coletados e dispostos de forma sistêmica, para balizar e bem fundamentar o planejamento e a gestão da atividade turística com vistas à sustentabilidade.

As reflexões sobre os rumos do turismo no Brasil indicam que os desafios não são poucos. Por isso, examinar a atual condição do setor turístico é elementar para que possa trazer os reais benefícios que o turismo sustentável pode proporcionar aos destinos receptores. Sabe-se que em cada lugar visitado sempre há algo mais para ser visto, um cenário esperando para ser vivenciado. Precisamos perguntar, pois, que atitudes devem os moradores ter diante dos olhares ávidos dos visitantes em função do seu imaginário e da imagem do destino? Ou, na via contrária, que motivação pode levar o morador de uma localidade a mostrar a paisagem passível de imaginabilidade que está inserida em seu habitat?

Para essa reflexão, lembramos o mestre Milton Santos, a quem o Brasil deve reverência pela enorme contribuição aos estudos e debates sobre a cidade, os territórios e os espaços. É dele a interpretação de que a cidade é o melhor laboratório para entender o mundo e que o espaço não é mais que uma acumulação desigual de tempos, forma geográfica para observar e se aproximar da história, para compreender o presente e vislumbrar seu futuro. Milton Santos também chama a atenção para o papel crítico que deve ter a Universidade com vistas ao debate civilizatório.

As questões abordadas por esse renomado intelectual brasileiro remetem à complexidade que é construir caminhos e soluções para a sustentabilidade do turismo no processo de desenvolvimento dos territórios e qual contribuição a Universidade deve dar para a proteção da natureza e para o bem-estar dos seres humanos. E a história coloca diante de nós tarefas que exigem ser realizadas ante a inevitabilidade de transformação do real, em uma perspectiva coerente e clara de um ambiente organizado e identificado a partir de políticas sustentáveis, impregnadas dos significados que cada localidade carrega.

É sabido que a intervenção humana no ambiente natural e seus impactos já provocaram intensos debates que extrapolam a academia – antes, o principal referencial para este tipo de discussão. Hoje, a participação da comunidade nos processos de desenvolvimento de suas localidades revela que essa conduta traz à tona questões de extrema importância para a sustentabilidade desse desenvolvimento – econômica, social, cultural, ambiental e política.

Em geral, cada setor empresarial do turismo envolve particularidades, o que pressupõe levantamen¬tos, análises e informações diferenciadas. Logo, faz-se necessário o monitoramento constante do que se refere às estruturas, aos atrativos, às potencialidades e aos diferen¬ciais dos destinos, aos mercados efetivos e potenciais, aos benefícios econômicos a auferir ou auferidos com a atividade turística, e assim por diante. Essa questão não apenas pode ser o diferencial para a viabilização do setor em determinado território como é a base para o redirecionamento de políticas e de negócios.

Constata-se, porém, que os dados da oferta turística encontram-se disponíveis em determinadas fontes, de forma agregada, embora o monitoramento da oferta exija uma atualização sistemática e até dados de disponibilidade sazonal para bem atender ao planejamento das atividades turísticas. No caso da demanda turística a situação é ainda mais precária, uma vez que os dados existentes, de modo geral, são meras aproximações como, por exemplo, os de desembarque.

Diante desse panorama, é que o Centro de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília criou o projeto Observatórios par o Turismo Sustentável, por entender que o seu funcionamento permite a organização de um sistema de informações coletadas e dispostas de forma periódica, para balizar e bem fundamentar o planejamento e a gestão da atividade turística com vistas à sustentabilidade, especialmente no que tange às organizações dos setores que constituem o turismo, sejam privadas ou públicas.

O desafio posto nessa perspectiva é compartilhar e gerenciar informações. Vale notar que iniciativas como essa são particularmente importantes, pois permitem a identificação de novas necessidades, de problemas locais ou regionais, possibilitando a intervenção imediata nos processos de desenvolvimento turístico, em iniciativas compartilhadas e participativas.

O Observatório para o Turismo Sustentável é organizado por meio de um Comitê Gestor, composto por representantes do poder público, de empresários do arranj produtivo do turismo e demais interessados. Esse público pode discutir, propor, regulamentar e acompanhar a evolução do turismo, envolvendo-se diretamente nesse processo, de forma compartilhada, seja no âmbito nacional, regional ou local, possibilitando ambiente propício para mudança de padrões de atitudes e de valores no seio das lideranças do setor.

O empenho das lideranças do setor turístico é fator decisivo para a conquista de um novo patamar da atividade no País. À Universidade cabe a responsabilidade estratégica de pesquisa, reflexão, sistematização, acompanhamento e assessoramento nessa área de conhecimento, pois sabe-se que a complexidade e abrangência da problemática em que consistem os impactos do turismo são bem mais amplas do que o entendimento que tem ampla parcela dos atores envolvidos, posicionados apenas de sua visão particular. E por esses impactos serem resultantes das atividades humanas é que o CET/UnB tem a preocupação de incentivar a gestão compartilhada de informações estratégicas para o desenvolvimento da atividade.

Para tanto, a constituição de Observatório do Turismo Sustentável é uma forma de conhecer e enfrentar os desafios postos coletivamente para o setor turístico, dando-lhes soluções sintonizadas com a lição do mestre Milton Santos: “Cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo dialeticamente”.


Publicado na revista Turismo em pauta, nº 7, setembro/outubro 2011, publicada pela CNC

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