ALINE DE AMORIM C. VIANA | LABOR MOVENS
A gastronomia pesqueira artesanal constitui uma práxis socioambiental densa, na qual o alimento transcende a subsistência biológica para se firmar como linguagem, memória e resistência territorial. No centro desse sistema produtivo e simbólico, as mestras da gastronomia pesqueira artesanal atuam como intelectuais comunitárias cujo saber-fazer desestrutura a tradicional divisão ocidental entre o trabalho braçal e a atividade intelectual. Ao analisar as dinâmicas estuarinas, a perspectiva da ecologia humana formulada por Josué de Castro permite compreender como o corpo biológico e a paisagem aquática se constituem mutuamente. Em Homens e Caranguejos (Castro, 1967) apresenta como a vida nos manguezais desenha uma ontologia do ser em comunhão com o ecossistema, onde a população local metaboliza a matéria do estuário e por ele é culturalmente moldada. Nas práticas cotidianas das mestras, essa ecologia se manifesta no domínio dos calendários lunares, na leitura das marés e no conhecimento minucioso do ciclo reprodutivo das espécies, convertendo o tempo ecológico da natureza em soberania e segurança alimentar para suas comunidades.

Fonte: acervo pessoal da autora. Foto tirada por Felipe Araújo.
O saber profundo dessas mulheres, contudo, enfrenta o silenciamento histórico provocado pelo pelo trabalho invisibilizado classificado como “ajuda” e deslocado para o quintal, na coleta do marisco, do sururu e no preparo cotidiano do pescado, apesar de sustentar toda a cadeia produtiva da pesca artesanal e manter-se vivo diante das investidas do capital imobiliário, do turismo predatório e do racismo ambiental que assola o litoral pernambucano.
Diante dessa assimetria, a proposta do “Encontro de Saberes” (Carvalho, 2021), oferece o arcabouço político e pedagógico necessário para reivindicar a equivalência epistêmica entre os conhecimentos acadêmicos e as tecnologias tradicionais. A cozinha da pesca artesanal opera como um laboratório vivo de química, ecologia e oralidade. Neste sentido, reconhecer a autoridade dessas mulheres enquanto mestras da gastronomia exige descolonizar a universidade e admitir que a transmissão ancestral do ato de cozinhar gera conceitos e metodologias tão rigorosos quanto aqueles produzidos nas ciências formais, desconstruindo a perspectiva que reduz a sabedoria popular a um mero folclore ou trabalho informal.
Achinte (2009), sob a lente da interculturalidade decolonial, aponta que a preparação dos alimentos ganha densidade como uma verdadeira pedagogia da re-existência. O autor destaca que a matriz colonial do poder buscou impor a padronização das dietas e a mercantilização da natureza para desarticular os vínculos comunitários com a terra e com os rios. Em contraposição a esse apagamento, o preparo de pratos tradicionais, como ensopados, moquecas, caldos e pirões, configura uma desobediência gastronômica. Ao priorizar o pescado artesanal e os temperos locais, as mestras enfrentam a degradação dos ecossistemas aquáticos, o avanço da especulação imobiliária costeira e a proliferação de ultraprocessados, reafirmando diariamente a afetividade, a memória e a autonomia cultural por meio dos sabores e saberes que emergem dos seus territórios.
Essa articulação entre saberes tradicionais e conservação ambiental conecta-se diretamente à discussão sobre salvaguarda cultural fundamentada por Cunha (2007), em que o conhecimento tradicional não pode ser preservado como uma mercadoria folclórica ou um bem abstrato, pois é indissociável dos direitos territoriais e socioculturais dos povos que o geram. A salvaguarda efetiva da gastronomia pesqueira exige a garantia de marés e rios despoluídos, o livre acesso aos estuários e a titulação das terras tradicionais. O colapso dos ecossistemas aquáticos resulta no desaparecimento dos ingredientes e, consequentemente, na extinção de todo um sistema epistemológico.
Ao converter a matéria-prima da pesca artesanal em substância biológica, memória afetiva e insurgência política, essas mulheres demonstram que a conservação dos ecossistemas e a transmissão de saberes ancestrais constituem tecnologias sociais indispensáveis para o presente. Por fim, reconhecer e legitimar a autoridade epistêmica e comunitária das mestras ultrapassa o campo da gastronomia por se tratar de um compromisso ético e socioambiental indissociável da garantia da soberania alimentar e da preservação contínua dos territórios tradicionais.
Referências:
Achinte, A. A. (2009). Comida y colonialidad: tensiones entre el despojo y la re-existencia. In: PALERMO, Z. (org.). Arte y estética en la encrucijada descolonial. Buenos Aires: del Signo, p. 81-110.
Castro, J. de. (1967). Homens e Caranguejos. São Paulo: Editora Brasiliense.
Carvalho, J. J. de. (2021). Notório Saber para os mestres e mestras dos povos e comunidades tradicionais: uma revolução no mundo acadêmico brasileiro. Revista da UFMG, Belo Horizonte, v. 28, n. 1, jan./abr, p. 54-77.
Cunha, M. C. da. (2007). Relações e dissensões entre saberes tradicionais e saber científico. Revista USP, São Paulo, n. 75, set./nov, p. 76-84.
